Paradoxo: 1200 médicos sem acesso à especialidade e falta em obstetrícia, anestesiologia e pediatria

21 Junho 2019

Olá 🙂

Este ano cerca de 1200 médicos vão ficar sem acesso a uma vaga no internato da especialidade, estima a Associação de Médicos pela Formação Especializada.

Para a Presidente da associação, Constança Carvalho, “o Ministério da Saúde tem demonstrado um preocupante desinteresse”, apesar da gravidade da situação.

No concurso de 2018, cerca de 700 médicos ficaram sem acesso à especialidade, e um cenário semelhante já tinha acontecido no ano anterior. Segundo a associação, até 2021 vão existir mais de 4000 médicos sem especialidade devido ao “impasse” e falta de decisões da tutela.

Apesar de considerar que o acesso à especialidade é importante, a Ministra da Saúde defende que nem todos os médicos têm de ser especialistas. Na opinião de Marta Temido, há necessidade de haver “várias tipologias e não têm de ser todas da mesma natureza. Um não-especialista pode ser altamente qualificado”.

 Marta Temido assegurou que o Ministério da Saúde está a avaliar a possibilidade de aumentar o número de vagas para formar mais médicos especialistas e vai também aumentar o número de médicos graduados seniores. Até ao final deste mês vai abrir um concurso para médicos graduados seniores para “garantir mais pessoas diferenciadas para orientar”.

Miguel Guimarães alertou para a necessidade de alterar a forma e os prazos dos concursos para as especialidades médicas.

O Bastonário lembrou que esta é a quinta vez que, este ano, as urgências de ginecologia – obstetrícia do Hospital de Beja encerram devido à falta de um segundo médico especialista.

“Temos tido concursos assimétricos, disfuncionais e insuficientes nas várias especialidades, mas muito concretamente na ginecologia – obstetrícia, com impacto imediato e direto em indicadores que tanto nos orgulhavam e que eram elogiados a nível internacional, como a mortalidade materna e a mortalidade infantil”.

Na escala do fim de semana de 15 e de 16 de junho também faltaram anestesiologistas no Hospital Pulido Valente – a reanimação não esteve assegurada em presença física. Esta situação deixou os médicos surpresos e preocupados com o impacto na qualidade assistencial e na segurança dos doentes internados.

 O Sindicato Independente dos Médicos considerou lamentável a falta de anestesiologistas em presença física e exigiu explicações à administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHULN).

Apesar de compreender as preocupações dos médicos, o CHULN referiu que, naquele fim de semana, estiveram em permanência quatro a cinco médicos para assegurar a assistência aos doentes internados nos Serviços de Pneumologia, Medicina Interna, Cirurgia Torácica e Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos. No caso de necessidade, seria chamado um anestesiologista.

Miguel Guimarães acrescentou que também no Hospital de Portimão ocorreu uma situação semelhante. A maternidade do Hospital de Portimão esteve fechada entre as 17h do dia 19 de junho e as 9h do dia seguinte devido à falta de pediatras.

Nos meses de Verão a situação vai agravar e estender-se a outros hospitais: no Hospital de Santa Maria, no Hospital de São Francisco Xavier, no Hospital Amadora-Sintra e na Maternidade Alfredo da Costa as urgências de obstetrícia vão entrar num sistema de rotatividade, a partir da última semana de julho e até ao final de setembro.

Esta solução de rotatividade, em que uma das urgências é fechada, proposta pelo Ministério da Saúde através da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), tem como objetivo atenuar os efeitos da falta de médicos.

Em média, por dia, a urgência obstétrica do Hospital de Santa Maria recebe 80 grávidas, a Maternidade Alfredo da Costa atende uma média de 100 pessoas e no Hospital São Francisco Xavier chegam diariamente às urgências de obstetrícia cerca de 70 mulheres.

Na opinião de Miguel Guimarães, este regime de rotatividade é uma “situação dramática” e “muito complexa” que “pode ter consequências imprevisíveis”. Marcelo Rebelo de Sousa também se pronunciou sobre esta situação e quer que esta seja devidamente esclarecida e explicada, para “serenar os espíritos das pessoas”.

O Presidente da ARSLVT espera que ao longo destes “três meses de verão, e perante um problema grave, não existam falhas inesperadas”. Luís Pisco aconselhou as grávidas a telefonarem para o 112 ou para a linha Saúde 24 para obterem informações sobre os serviços que estão abertos naquele dia.

Entretanto, o Ministério da Saúde já confirmou o fecho rotativo dos serviços de urgência de obstetrícia.

“Os trabalhos em curso versam sobre o encaminhamento de utentes pelo CODU (INEM), prevendo-se que estejam sempre garantidos os serviços de urgência externa de três das quatro maternidades abrangidas e apenas durante o período de Verão, mantendo-se as restantes respostas nas quatro unidades sem alterações.”

Ainda sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS): na Convenção Nacional da Saúde, as cerca de 150 organizações de saúde que se juntaram a esta iniciativa alertaram para o facto de o SNS estar a dar “sinais de cansaço depois de anos seguidos de resiliência e resistência dos profissionais”.

No discurso em que apresentou as conclusões da Convenção, a Bastonária dos farmacêuticos, Ana Paula Martins, referiu que o SNS não deve ser para os “pobres” nem gerido “por preconceitos, conflitos de interesse, decisões pouco informadas”.

Foram também debatidas medidas para tornar o “serviço de urgência mais eficiente”, num país que é “campeão do recurso” a estes serviços.

O diretor de cuidados intensivos e emergência do Centro Hospitalar do Porto, António Marques, defendeu a existência de equipas fixas nas urgências e a criação da especialidade de medicina de urgência/emergência. Uma ideia defendida também pelo diretor do serviço de urgência do Hospital de Braga.

Por último: o grupo de trabalho que a discute a nova Lei de Bases da Saúde chumbou todas as propostas referentes às Parcerias-Público-Privadas (PPP).

No texto final não vai haver referências às PPP e, ao manter-se o decreto de 2002, a gestão privada dos hospitais públicos continua a ser possível. Após o desentendimento à esquerda, o PS e o PSD estão a tentar chegar a um acordo para salvar a Lei de Bases.

Durante a semana, a comunicação social foi também dando destaques a outros assuntos. Eis alguns que foram partilhados no Twitter:

Chegou o momento da Urologia! 😎 Experimenta na secção Calculadoras da Tonic App a calculadora do PSA, para decisão de referenciação para urologia e biópsia prostática, e a escala IPSS, para avaliação da hipertrofia da próstata.

Acabamos também de disponibilizar um novo eBook para partilhares com os teus doentes! Já temos 16 no total. Este explica o refluxo gastroesofágico e o esófago de Barrett e o seu tratamento endoscópico. Procura na secção Literacia para a Saúde.

Segue-nos no nosso Facebook ou Instagram ou em @tonicappmobile.

Bom fim de semana,

Sofia Fernandes

Anterior